Uma aventura longe, bem longe

Um treino de luxo para a maratona. Foi o que pensei quando me inscrevi na Ultramaratona 5 Pontões, categoria Short (30km), em Laranja da Terra – interior (do interior) do Espírito Santo. Sabendo que seria uma aventura e acompanhado apenas de Deus, decidi ir ao extremo e sequer verificar qualquer promoção de vôo ou qualquer preço de pousada. Viajaria de ônibus e utilizaria o alojamento oferecido pela organização em uma escola local.

As sete horas e meia entre Rio de Janeiro e Vitória foram bem tranquilas. O que incomodou foi saber que não havia ônibus direto de Vitória para Laranja da Terra. Teria que ir até Afonso Claudio e dali, enfim, para o destino final. Sem contar os poucos horários disponíveis destas linhas, diga-se de pasagem. No entanto, após três horas e meia de viagem até Afonso Claudio e mais uma hora e meia até Laranja da Terra, cheguei finalmente ao local da Ultramaratona.

Já sabendo que teria que levar o colchão, a grande atração do alojamento foi ter que improvisar o chuveiro, já que nenhum banheiro apresentava uma ducha. A solução foi pendurar uma mangueira no varal!

À noite, no congresso técnico, foram apresentadas todas as informações e curiosidades sobre a prova que aconteceria na manhã seguinte. Conheci vários ultramaratonistas cujas histórias já foram publicadas em revistas especializadas como O2, Contra-Relógio e Runner’s World. Campeões e exemplos de atleta como Sérgio Cordeiro, Sebastião da Guia e Jorge Cerqueira estavam presentes e confirmados no evento.

A prova de 30km foi toda realizada debaixo de sol. Como a largada foi dada às 7h (numa excelente decisão da organização), o calor só apareceu de verdade na segunda hora da corrida. As constantes pequenas subidas e descidas, aliadas à poeira levantada pela passagem de carros e caminhões seriam os maiores obstáculos, não fosse um problema crucial: os pontos de hidratação bem aquém do divulgado, com a água quase sempre na temperatura ambiente, e restrito a um único copo para cada corredor que passava. O que salvou os corredores foi a presença de uma motocicleta que passava pelos competidores oferecendo mais um copo d’água.

Além da subida de quase 1000m na altura do km 11, o ponto alto do evento foi o cruzamento do rio Guandu. Muito bem sinalizado, é importante que se diga, apesar de um atleta da categoria Short ter se equivocado no trajeto. A profundidade do rio nos obrigava a atravessá-lo com água até a barriga, o que acabou se tornando o melhor “posto de hidratação” da prova. Esta travessia acabou por se tornar altamente estratégica e decisiva, em função da maneira como cada atleta teve que lidar com ela. Muitos tiraram seus tênis e perderam tempo. Outros mantiveram o tênis, porém sofreram com a terra absorvida pelos calçados. Eu decidi não tirar o tênis, o que acabou sendo proveitoso pelo fato de estar usando um calçado bem leve, que quase não reteve terra. Em função disso, e talvez também pela resistência ganha nos treinos, acabei passando 5 atletas nos últimos 10km.

Ao mesmo tempo em que a matinée dos 30km terminava, o martírio dos peixes grandes, ultramaratonistas de fato, seguia em frente. Uma subida bem íngreme de 14km castigava os participantes sob um sol impiedoso. Segundo os participantes, os pontos de apoio remoto prometidos pela organização simplesmente não existiam.

Para piorar a situação, com cerca de 4 horas de prova uma chuva torrencial caiu sobre a cidade depois de 60 dias de seca. Isso apagou a marcação de cal feita pela organização e com isso muitos atletas se perderam, não encontraram o rio, e fizeram uma volta que elevou a distância do percurso de 62km pra 70km. Foi realmente uma saga para vários competidores.

Enquanto esperava um ônibus que me levasse de volta a Vitória, acabei tendo a honra de emprestar o celular ao campeão da categoria Long. Só consegui chegar à rodoviária de Vitória à meia-noite, sendo que  só haveria nova partida para o Rio de Janeiro pela manhã. A madrugada foi longa, mas tive a síntese dessa viagem nas palavras do Sebastião da Guia:

A verdade é uma só: ultramaratonista não tem juízo nenhum.

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