Participar de uma corrida longe de casa, em outro país, e ainda por cima cross-country, foi sem dúvida uma experiência inesquecível. A Ashtead 10K é considerada uma das 10 melhores corridas de 10K da Inglaterra. Por si só isso já a torna impressionante, uma vez que existem por lá centenas de corridas de 10K todo ano. Mas a marca se torna ainda mais incrível quando se descobre que é uma corrida de organização frugal e com forte ênfase em sustentabilidade, tanto que se auto-denomina “a corrida mais verde da Inglaterra“.
O traslado de Bromley (onde eu estava hospedado) até Ashtead durou cerca de 50 minutos. Era meu último dia de viagem a UK, as pernas pediam arrêgo depois de 11 dias andando pelas ruas de Londres.
O estacionamento era na estação de trem de Ashtead. A temperatura estava em torno dos 16 graus, mas o vento cortante derrubava a sensação térmica. Uma caminhada de 2 minutos e estávamos no stand da organização, montado na sede do grupo local de escoteiros.
Número muito limitado de participantes (foram pouco mais de 250 este ano), sem patrocinadores, sem infraestrutura, sem chip de cronometragem e sem kit de participação. Tudo o que você recebe antes da prova é o número de peito, que por sinal era produzido em papel cartão e impresso com tinta orgânica. Não é preciso dizer que era quase impossível chegar ao final da prova com o número preso à camisa. A própria organização fazia questão de deixar claro no site da prova, com uma pitada de humor inglês: “if it rains, please run faster before the numbers disintegrate“!
Mais cinco minutinhos de caminhada e chegamos a um enorme descampado, onde fitas plásticas (daquelas que isolam as cenas de crimes) demarcavam o local onde tanto largaríamos quanto chegaríamos.
Dez minutos antes da largada, o diretor de prova Rob McCaffrey chamou todos os competidores por meio de um microfone acoplado a uma caixa de som estourada. Rob é um sujeito divertido: magrelo, branco como uma parede, meio careca, munido de um óculos fundo de garrafa e vestido num indefectível short com a bandeira da Inglaterra. Deu meia dúzia de avisos e puxou o coro para que cantássemos o hino da Inglaterra, mas não sem antes avisar: “don’t forget the lá-lá-lá“! Em seguida arrancou gargalhadas de todos ao pedir cordialmente que fizéssemos fila de acordo com a ordem de chegada, para evitar atropelos na largada. Terminou avisando que o piso estava seco mas tinha de tudo: grama dura, grama fofa, terra, areia, raízes de árvores, buracos, barro com folhas e que tomássemos cuidado para não nos machucarmos.
Meu objetivo era terminar a prova na casa do 5:30/km. A falta de treinos em função da recuperação da periostite e o uso excessivo das pernas durante a semana em Londres não me permitiam sonhar com algo muito melhor do que isso, ainda mais pela altimetria complicada da prova. Mas eu estava ali pela diversão, pelo prazer de correr.
Dada a largada, os primeiros 200m são no plano, mas logo chegamos a uma subida forte, onde saímos do descampado e entramos na mata. A subida durou até o km 1.6, seguida de uma pirambeira de 400m, pra baixo e que ao final se via uma placa virada para quem vinha na mão oposta: “Attention! Hill!”.
Aí realizei que aquela pirambeira descendente do km 2 era a tal subida fatal do km 8, muito comentada em resenhas sobre a prova. Olhei pro relógio e percebi que havia me empolgado demais até ali. Fechei os 2K numa média de 5:11/km e já apresentava algum cansaço. Resolvi baixar a bola com medo de quebrar no meio da corrida.
O psicológico por sinal é um aspecto importantíssimo neste tipo de prova. O nível de concentração que é necessário em uma prova cross-country é coisa de enlouquecer. É preciso 100% de atenção onde se pisa porque qualquer vacilo é tornozelo torcido na certa. Com isso, não se pode curtir a paisagem e muito menos fechar os olhos (recurso que utilizo em provas longas para tentar enganar o cansaço). As passadas não podem ser muito curtas porque você precisa de tempo para mirar onde o pé vai aterrissar.
Com toda essa concentração, a fadiga mental acelera a chegada do cansaço físico. Nem deu tempo de curtir a descida a partir do km 4. Os líderes passaram por mim subindo no sentido contrário. E tudo que vinha a minha mente é que, quanto mais perto eu descia em direção ao ponto de retorno no km 5, mais perto chegava o momento em que eu teria que voltar subindo aquilo tudo.
Chegando ao ponto de retorno, levo um susto quando ouço meu nome sendo gritado pelo meu cunhado, que empunhava meu celular na mão para tirar uma foto. O ponto de retorno ficava a aproximadamente uns 600m do local de largada, e a organização da prova havia convidado os familiares para darem uma força aos corredores no meio do percurso.
O único ponto de hidratação ficava bem ali no retorno. Peguei o copo de papel com força demais e perdi metade da água. Dei uma freada para beber o resto cuidadosamente porque já sabia que seria minha última gota d’água até a chegada. Ao longo do trecho que se seguia ao posto de hidratação, diversos voluntários se amontoavam para recolher os copos diretamente da mão dos corredores. Nada de copos no chão. Afinal estávamos no meio da mata e não haveria garis varrendo a pista após a prova.
O cansaço chegou de vez na marca de 6K. Até aquele ponto eu não havia ultrapassado absolutamente NINGUÉM desde a largada, muito pelo contrário. A turma era forte: a maioria dos que estavam ali é porque gostavam de corrida complicada. O restante era de gente desavisada, como eu.
Na altura do km 7, passei por uma senhora sentada à beira da trilha, sendo ajudada por outras três corredoras. Ouvi uma delas falando algo sobre “hornets“, mas pensei que não havia entendido direito a frase. Pois cerca de 200m depois, eis que surge uma árvore com um enxame de vespas girando a sua volta. Acelerei, passei pela árvore o mais rápido que pude e ainda senti o zunido de uma maldita dando rasante no meu ouvido direito. O sprint só foi acabar uns 400m depois quando parei de ouvir os zunidos. “Vai ter gente literalmente se ferrando com estas vespas“, pensei eu.
Chegando no km 8, eis que reencontro aquela placa “Attention! Hill!”, agora virada pra mim. Àquela altura, a minha média total já havia caído para 5:31/km e eu já estava pra lá da bola 7. Busquei me motivar, lembrando que eram “apenas” 400m pirambeira acima e que depois viriam 1600m de descida pra buscar o tempo planejado. Encurtei a passada, fixei o olhar no chão e liguei o motorzinho.
Fiquei feliz da vida quando finalmente comecei a ultrapassar alguém. Era perceptível como mais ninguém estava encurtando a passada e muitos acabaram quebrando andando antes do final da subida. Eu estava exausto, mas sabia que faltava pouco pro sofrimento acabar.
Ao começar a longa descida, quando os buracos ficam mais ocultos e a aterrissagem é mais forte, percebi que não poderia manter a passada curta porque teria pouco tempo pra decidir onde pisar. Então alonguei a passada e redobrei a concentração. E continuei passando mais pessoas morro abaixo.
Ao fim da descida, voltamos ao descampado de onde havíamos largado. Mais 200m até a chegada e fechei a prova na 123ª colocação, com o tempo de 54:18 (média de 5:25/km). Missão cumprida.
E pra quem ficou curioso sobre o ataque de vespas, segue trecho da mensagem recebida por todos os competidores após a corrida: “I hope that you enjoyed today’s Ashtead 10k race. I understand that a number of runners were stung by hornets around the 7km mark – I’m sorry to hear that. The lady who was badly stung is now recovering after attending the local hospital.“
Enfim, foi uma experiência e tanto. Apesar da dificuldade e de todo o sofrimento, esta é uma daquelas provas que a gente não esquece, até pelo contexto no qual ela ocorreu.
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